AS EXÉQUIAS DA CRUELDADE: UMA LEITURA COMPARATISTA

 

Léa Masina - UFRGS

 

 

A posição geográfica do Rio Grande do Sul, situado no extremo meridional do Brasil, na fronteira com os países do Prata, é um dos fatores que influem necessariamente na definição das preferências temáticas e dos recortes ideológicos que caracterizam a literatura sul-rio-grandense, marcando sua diferença com relação à literatura brasileira legitimada pelos centros hegemônicos do Brasil. Entre os motivos que causam essa diferença está a proximidade e o contato dos escritores com a cultura e, sobretudo, com as literaturas platinas. Outro motivo é, seguramente, a vivência fronteiriça, que os leva a compartilhar o mesmo território geográfico, vivendo sob circunstâncias históricas semelhantes ,e, não raro, intercorrentes.

Para investigar a incidência platina na literatura brasileira, vista como índice de diferenciação regional, é preciso considerar a existência de elementos de identificação entre os espaços urbanos meridionais. Frutos da colonização ibérica, Argentina, Uruguai e Brasil tiveram sua história marcada por guerras de fixação de território, cujos limites eram alterados em função de tratados e protocolos alheios aos interesses das colônias. Além disso, as três nações suportaram processos internos de autonomia política fortemente marcados pelo autoritarismo – monárquico ou caudilhista – e pelo confronto ideológico entre facções opostas, representadas, na maioria das vezes, pelas diferentes oligarquias regionais.

No tocante à tendência de se reproduzirem nas colônias os modelos de dominação, registram as histórias dos três países que as revoluções internas, que se propagam até o século XIX, mesmo depois de consolidadas as independências das colônias, tiveram como conseqüência um “ânimo beligerante”, responsável pela violência nas práticas de convívio social. Esta é comprovada pelo registro histórico de castigos brutais e arbitrários cometidos nas guerras ou nas prisões, de torturas e mortandades, de atos de vandalismo e de genocídios movidos, mais que tudo, pela ambição caudilhesca que legitimava, dentre outros, o ódio racial. Tais características comuns aos três países meridionais, no caso do Brasil , são encontradas no Rio Grande do Sul, reconhecido, no restante do país, pelo ânimo beligerante e como espaço de rebeldia e transgressão. A Guerra dos Farrapos (1835-1845) deu continuidade ao processo herdado das guerras de fronteira, que alcançou seu ápice na Revolução Federalista de 1893. Como os textos históricos amplamente comprovam, essa guerra interna foi cruel e violenta, registrando um número expressivo de mortes, bem como a prática do extermínio de prisioneiros pela degola. Ações determinadas pela vingança, acirradas pelo ódio político entre governantes e oligarcas, levaram ao campo de batalha uma quantidade alentada de soldados brasileiros e uruguaios, lutando pela defesa de ideais que, simplesmente, desconheciam. Embora haja registros da supremacia da autoridade militar entre os povos da fronteira, a fidelidade ao “patrão”, ao dono da terra e do mando local parece ter determinado, na maioria das vezes, a cor da bandeira a ser defendida.

É possível que os episódios de 1893 não se tenham prestado ao registro literário das primeiras décadas de vinte porque neles estavam ausentes algumas “virtudes” guerreiras, até então preconizadas pela retórica literária, dentre as quais as que compunham o caráter “heróico” do gaúcho: honra, lealdade, coragem, dignidade, justiça, respeito pela família e pela ordem constituída. A ausência de apelo épico certamente contribuiu para silenciar os escritores a respeito de uma guerra que enlutou inúmeras famílias gaúchas, extinguiu algumas fortunas e consagrou as práticas caudilhescas, como a profanação e a exposição de cadáveres mutilados, a invasão e o saque às fazendas, o estupro e a sevícia contra prisioneiros, a tortura até a morte, e o “carcheo”, que consistia em roubar os pertences dos cadáveres após cada batalha. É possível que a visão realista da guerra, das coxilhas ensangüentadas, do ódios dos vencedores e dos vencidos tenha silenciado a pena dos escritores, impedindo-os de narrar as vicissitudes de uma época em que a barbárie dominou o pampa, provando que a dicotomia de Sarmiento era, de fato, redutora, eis que a barbárie rompia a crosta da civilização.

O que ocorreu no Brasil, com relação a 1893, ocorreu também na Argentina e no Uruguai em outros momentos . A violência, consubstanciada nos partidos políticos, já ensejara a publicação, por exemplo, de El Matadero, de Echeverria, libelo contra rosas escrito entre 1837 e 1840, em pleno romantismo, e que foi, com certeza, lido por escritores platinos e brasileiros da passagem do século. Não obstante, também nos países do Prata as guerras não ensejaram, de imediato, uma literatura em que o fato histórico buscasse sua representação no literário. O episódio doloroso do extermínio dos índios charruas, ocorrido durante a presidência de Fructoso Rivera, referido, de passagem, no romance Ismael, de Eduardo Acevedo Díaz, só se irá transformar em matéria narrativa com o uruguaio Tomas de Mattos, em 1988., quando da publicação de seu romance Bernabé, Bernabé!.[1]

Da Revolução Federalista, de 1893, o único registro literário contempoâneo é o diário de Ângelo Dourado, Voluntários do martírio. O doutor Dourado, que participou do conflito como médico militar, relata-o com o distanciamento típicamente mineiro, portanto, imparcial no registro de embates entre grupos gaúchos rivais.

            A trégua entre os conflitos armados no sul do Brasil, que só irão ressurgir em 1923, registrou o aparecimento de narrativas cujo denominador comum é a nostalgia e o desalento. Essas obras foram, muitas vezes, interpretadas pela crítica como produtos de uma retórica passadista e alegórica, como ocorreu, por exemplo, com as narrativas de Alcides Maya[2]. Curiosamente, não há, nesses textos, referências explícitas a formas de crueldade, como a morte por tortura, a sevícia, o espancamento, a mutilação. No próprio Maya, lêem-se o registro da violência social, com a exclusão de posseiros, a expropriação, o aniquilamento social e as rivalidades partidárias. Seu regionalismo naturalista nutriu-se das idéias cientificistas da época, rejeitando aplicá-las ao caso concreto da guerra, que ele certamente conhecia por ser neto de maragato e filho de castilhista. No terreno das hipóteses e das suposições, cabe observar que ocorreu, no plano literário, a substituição da tendência naturalista à descrição do mórbido pela expressão nostálgica do sofrimento. Este era indescritível porque comprometia o senso de dignidade que integrava a visão mítica do gaúcho heróico acolhido e legitimado pela intelligentsia da época. É possível supor, também, que a leitura de escritores franceses decadentes, ou mesmo naturalistas, com sua visão amarga das patologias sociais, como Max Nordeau, serviu como diapasão para afinar a visão de mundo que aproxima, pelo pessimismo trágico, escritores como Horácio Quiroga e Alcides Maya.

O tema da violência, de algum modo, desliza entre a história e a literatura, tornando-se objeto de escritores que desejam expurgar a memória de um passado cruel no qual os tiranos substituem os heróis, ou quando estes deixam conhecer sua natureza ambivalente e humana, incompatível com os modelos de heroísmo consagrados. Essa espécie de Ilíada ao avesso não se ocupa, apenas, com desmitificar a história, mas propõe ler a história a contrapelo, multiplicando os episódios em inúmeros viéses, nem sempre convergentes ou similares.

Assim como foram necessárias algumas décadas para que fatos cruéis, ligados às revoluções e guerras, pudessem ser tratados pelo discurso histórico[3], também foi necessário tempo para que a literatura pudesse rever, ficcionalmente, a violência e a crueldade desabonadoras de uma visão de mundo acorde com a modernidade. Assim, radicando nos textos fundadores da gauchesca platina, a narração de cenas cruéis passa a ocupar os ficcionistas, do século XX, como se a estes coubesse realizar “as exéquias” da crueldade.

Nesse sentido, as narrativas sul-rio-grandenses das duas últimas décadas, por seu caráter revisionista da história, pretendem mostrar aspectos insuspeitados da violência praticada contra o indivíduo, vista sob a ótica da vida privada. Inserem-se nesse espaço os contos de Sergio Faraco, os últimos romances de Luiz Antonio de Assis Brasil e de Tabajara Ruas. Com relação a este último, as exéquias da crueldade chegam a ser emblemáticas ao definirem o título do livro A cabeça de Gumercindo Saraiva. Misto de ensaio jornalístico e ficcão, nele Tabajara Ruas e o jornalista Elmar Bones narram a trajetória da cabeça do caudilho, líder dos federalistas de 1893, cujo cadáver fora violado por vingança, com o pretenso propósito de tornar visível e pública a supremacia dos vencedores. Nesse mesmo sentido, a história argentina é recontada através do percurso que realiza o corpo embalsamado de Eva Perón, até seu sepultamento definitivo no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires.

Não obstante o forte predomínio da violência nas guerras, estas não esgotam o tema, uma vez que a crueldade constitui um tema literário em qualquer lugar onde existam fortes desigualdades sociais. Se a temática da guerra está presente na literatura latino-americana, podendo ser representada em lances de heroísmo– como acontece, por exemplo, na obra de Acevedo Díaz – , raramente ela representa o épico, como se poderia supor. Ela é narrada do ponto de vista da vítima, o que leva a considerar a adesão ideológica dos escritores latino-americanos às questões sociais que formavam o contexto de suas obras e de seu tempo. Os contos de Pago Chico, por exemplo, do argentino Roberto Payró (1867-1928) centram a denúncia da crueldade no microcosmo latino-americano em que o arbítrio das autoridades civis é objeto de sátira. O castigo infligido a um mendigo, acusado de cometer abigeato, no conto Poncho de verano, denuncia a violência e a barbárie na própria concepção da sociedade : argentina, uruguaia ou brasileira. Nesse sentido, Payró acolhe o legado de Hernández, expondo aos leitores de Pago Chico (1940) um mundo sem heróis.

Assim, a violência, presente desde os textos fundadores das literaturas meridionais latino-americanas, inicialmente mitigada pela literatura romântica foi, não raro, escamoteada pela impossibilidade de expressar em palavras o horror e o assombro frente a situações-limite do sofrimento humano. As guerras, os genocídios, o embate de interesses políticos divergentes, a necessidade individual de sobrevivência e o instinto de auto-proteção eram manifestações do excesso e, portanto, capazes de desequilibrar o precário ordenamento social de países que recém se libertavam da condição de colônias européias. No século XX, a partir dos anos trinta e quarenta, começam a se explicitar esses registros, impregnados de forte apelo neo-realista.

É possível que a consciência do final do século traga implícito o projeto ideológico de revisar essas questões a partir de sua manifestação literária. A violência pela exclusão vem sendo contemplada, criticamente, pelos estudos culturais e pelas teorias de gênero. A violência explícita foi e tem sido denunciada pelos romances-reportagem e pelas narrativas de natureza ensaística em que se exorcisam as práticas cruéis comuns às ditaduras latino-americanas do século XX. Cabe, então, indagar se as exéquias da crueldade não serão um modo de sepultar, com honras fúnebres, as práticas de aviltamento humano, denunciando-as na literatura para, finalmente, encerrar um século no qual os paradigmas modernos buscaram excluir a visão da crueldade, da indigência e da miséria em prol da homogeneidade das culturas dominantes.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

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[1] O romance Bernabé, Bernabé, de Thomas de Mattos, traduzido para o português pelo escritor Sérgio Faraco, foi publicado pela Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1992.

[2] As guerras são referidas constantemente nos contos e no romance de Maya, mas não há neles descrição de embates ou de práticas guereiras. No romance Ruínas Vivas, Miguelito ouve as histórias das Guerras Cisplatinas e, ainda, da Revolução Farroupilha, lamentando a ausência de revoluções, pois elas o livrariam da rotina de viver como peão de estância.

[3] O assunto foi tratado inicialmente, do ponto de vista histórico, por Sergio da Costa Franco. Somente nas duas últimas décadas deste século, a Revolução Federalista pôde ser estudada com a isenção necessária.